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O tempo no Tambor é herdável: a primeira avaliação genética do Quarto de Milha brasileiro na prova

Pesquisadores da Universidade Federal de Rondonópolis analisaram 356.877 tempos de Tambor de 14.108 cavalos Quarto de Milha no Brasil e mostraram que a prova tem base genética real, ainda pouco aproveitada pelos criadores.

EsporteIntermediário17 out 202610 min
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O estudo em uma frase

Mário Luiz Santana, Thiago Garcia Botelho Franco e Annaiza Braga Bignardi, do Grupo de Melhoramento Animal de Mato Grosso (GMAT), da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), publicaram no Journal of Animal Breeding and Genetics (2025) a primeira estimativa de parâmetros genéticos para o desempenho de Quarto de Milha no Tambor. É ciência brasileira, feita com dados de provas brasileiras.

Os autores lembram que o Tambor chegou ao Brasil no início dos anos 1970, junto com o Quarto de Milha, e que até 2024 as provas no país já tinham distribuído mais de 6,2 milhões de dólares em prêmios. Mesmo assim, ninguém tinha medido quanto do tempo na pista vem da genética.

Como o estudo foi feito

Os dados vieram do Sistema SGP de Gerenciamento de Provas. A característica analisada foi o tempo de Tambor, em segundos. Quanto menor o tempo, melhor o cavalo.

ItemValor
Tempos analisados356.877
Cavalos com tempo registrado14.108
Animais no pedigree31.902
Provas13.035
Cavaleiros5.324
Média de tempos por cavalo25,29
Tempo médio (desvio padrão)17,985 s (0,749 s)
Melhor e pior tempo mantidos16,109 s e 21,099 s

São Paulo concentrou 61,1% dos registros, seguido de Paraná (13,7%), Rio de Janeiro (7,6%), Minas Gerais (5,6%) e Mato Grosso (2,6%).

A base não informava as penalidades de 5 segundos por tambor derrubado. Por isso, os autores só aceitaram tempos até 4,99 s acima do recorde brasileiro de 16,109 s. Esse filtro retirou cerca de 15% dos registros. Também saíram provas com menos de 10 animais, cavalos sem pai ou mãe conhecidos, cavalos com menos de 36 ou mais de 144 meses e cavaleiros com menos de três provas.

Para separar genética de ambiente, os autores usaram um modelo animal. É o método padrão do melhoramento: ele usa o desempenho do próprio cavalo e de todos os parentes do pedigree para estimar o valor genético de cada animal, que é a parte do desempenho que ele transmite aos filhos. O modelo também considerou o grupo de contemporâneos (mesmo evento, local, categoria e data), o sexo, a idade e o efeito do cavaleiro.

Foram comparados quatro modelos. O melhor foi um modelo de regressão aleatória cúbico. Em linguagem simples, ele permite que a genética do cavalo tenha pesos diferentes em cada idade. O cavalo de 3 anos e o de 10 anos são avaliados cada um na sua idade.

O que os números mostram

Idade e sexo

A idade média dos cavalos em prova foi de cerca de 76,5 meses (6,37 anos), e a idade mais comum foi 48 meses. Os mais novos correram mais devagar. O tempo médio melhorou até cerca de 73 meses e depois estabilizou. As fêmeas foram, em média, 0,025 s mais rápidas que os machos.

Herdabilidade

Herdabilidade é a fração da variação de uma característica que se explica pelos genes que passam de pais para filhos. Vai de 0 a 1. Uma herdabilidade de 0,20 indica que cerca de 20% das diferenças de tempo entre cavalos vêm de genética aditiva, e o restante vem de ambiente, treino, cavaleiro e acaso.

IdadeHerdabilidade do tempo de Tambor
36 meses0,15
54 meses0,24 (máximo)
Idades mais avançadascaiu, com leve alta depois de 115 meses

Os autores consideram esses valores suficientes para a característica responder à seleção. Eles se parecem com o que já foi publicado para tempo de corrida no Quarto de Milha (0,17) e para outras provas de velocidade em cavalos.

Correlação genética entre idades

A correlação genética mostra se os mesmos genes agem em duas situações. Perto de 1, os genes são praticamente os mesmos.

ComparaçãoCorrelação genética
36 x 48 meses0,96
36 x 60 meses0,89
36 x 72 meses0,85
36 x 144 meses0,65 (a menor do estudo)

Na maior parte da faixa de idades, as correlações ficaram acima de 0,8. Por isso, os autores concluem que selecionar os melhores cavalos jovens deve trazer progresso genético também nas idades mais velhas. A faixa de 36 a 54 meses reuniu herdabilidade mais alta, mais variação genética e boa correlação com as outras idades.

O peso do cavaleiro e do ambiente

A repetibilidade média foi de 0,46. Ela indica o quanto um cavalo repete seu nível de desempenho de uma prova para outra. O efeito de ambiente permanente do animal (tudo o que acompanha o cavalo ao longo da vida sem ser genético, como treino e manejo) respondeu por 0,28 da variação. O cavaleiro respondeu por 0,23. Os autores esperavam esse resultado, porque no Tambor a condução do cavaleiro pesa muito no tempo final.

Tendência ao longo dos anos

A média dos tempos melhorou 0,0513 s por ano, um resultado estatisticamente significativo. A média dos valores genéticos por ano de nascimento, porém, não mostrou progresso significativo.

Os autores atribuem a melhora dos tempos a fatores de fora da genética: manejo, nutrição, treinamento e provas mais competitivas. Para eles, a falta de progresso genético se explica pela ausência de um programa oficial de melhoramento do Quarto de Milha e pelo pouco uso de valores genéticos no Tambor. Hoje a seleção no Brasil se baseia no desempenho bruto e nos prêmios do cavalo e de seus ancestrais.

O que isso significa para o criador brasileiro de Tambor

  1. O tempo de Tambor tem base genética. Com herdabilidade de 0,15 a 0,24, a escolha de pais pode mudar a média dos potros ao longo das gerações.
  2. Dá para selecionar cedo. As correlações altas a partir dos 36 meses indicam que o desempenho genético do cavalo jovem já diz muito sobre o adulto.
  3. Tempo bruto engana. Cavaleiro, prova, idade e sexo mexem no cronômetro. Comparar cavalos só pelo tempo ou pelos prêmios mistura genética com ambiente.
  4. Há espaço para ganhar. Os autores concluem que a variação genética existe e está subaproveitada. Um sistema oficial de valores genéticos para o Tambor seria o primeiro passo.

Limites do estudo

  • Penalidades ausentes. A base não registrava os 5 s por tambor derrubado. O filtro adotado tirou cerca de 15% dos tempos e pode ter retirado também alguns tempos lentos sem penalidade.
  • Sem dados de treino. O tipo de treinamento não estava disponível. Os autores supõem que parte desse efeito ficou dentro do ambiente permanente do animal.
  • Poucos dados nas pontas. As estimativas para cavalos muito jovens ou muito velhos tiveram intervalos de credibilidade mais largos, por haver menos registros nessas idades.
  • Concentração regional. Mais de 60% dos registros vieram de São Paulo.
  • Só desempenho de pista. O estudo não usou dados genômicos nem avaliou outras características, como saúde locomotora ou temperamento.
  • Um detalhe a conferir. O texto cita a tendência dos tempos "entre 2002 e 2020", enquanto as provas são de 2010 a 2024. O período provavelmente se refere ao ano de nascimento dos cavalos, mas o artigo não deixa isso explícito.

Considerações do Laboratório Select

O estudo de Santana e colegas dá ao criador de Tambor algo que faltava: a prova de que o cronômetro tem uma parte genética, mensurável e transmissível. O passo seguinte é transformar isso em escolha de acasalamentos. É aqui que a reprodução assistida entra.

O progresso genético depende de três coisas: identificar os melhores pais com precisão, usar esses pais com intensidade e encurtar o tempo entre gerações. O artigo fala da primeira e da terceira, porque mostra que a seleção pode ser feita cedo. A ICSI ajuda na segunda.

Na leitura do Laboratório Select, há três pontos práticos:

  • Mais potros das éguas comprovadas. Na base do estudo, 7.268 éguas tinham filhos com tempo registrado, mas só 1.455 tinham registro próprio. Quando uma égua se prova pela própria pista e pelos filhos, a OPU-ICSI permite produzir embriões dela mesmo durante a carreira esportiva ou quando ela já não emprenha bem pelos métodos convencionais.
  • Uso eficiente do sêmen dos garanhões de ponta. A ICSI precisa de muito pouco sêmen por oócito. Isso aproveita melhor doses congeladas escassas, inclusive de garanhões já mortos, e doses de sêmen sexado.
  • Embriões vitrificados dão tempo para decidir. Com o embrião guardado, o criador pode esperar informações melhores sobre os pais, como novos resultados de pista dos filhos, antes de transferir.

Também é preciso honestidade sobre o que a genética promete. Uma herdabilidade de 0,15 a 0,24 indica que a maior parte da diferença de tempo entre cavalos vem de fora dos genes aditivos. Um embrião de pais excelentes tem mais chance de ser um bom cavalo de Tambor, sem nenhuma garantia individual. O potro ainda vai depender de manejo, doma, treino e de um bom cavaleiro, que neste estudo respondeu por 0,23 da variação.

Há ainda a diversidade genética. Se muitos criadores concentrarem embriões nas mesmas poucas éguas e nos mesmos poucos garanhões, a raça perde variação, e é essa variação que permite o progresso apontado pelos autores. O artigo não mediu endogamia, mas o tema merece atenção em qualquer programa que use reprodução assistida em escala.

Equipe Tucovet Select

Escrito pela equipe do Laboratório Select, laboratório de ICSI equina em Porto Feliz - SP. Encontrou um erro ou quer sugerir um tema? Escreva para contato@tucovet.com.br.