Linhagempor Tucovet Select
← Reprodução

ICSI em equinos: o caminho do oócito ao embrião

Por que a fecundação in vitro convencional quase não funciona no cavalo, e como a injeção intracitoplasmática de espermatozoide virou a ferramenta central da reprodução equina moderna.

ReproduçãoIntermediário15 out 20264 min
REPRODUÇÃO

Por que não basta juntar óvulo e espermatozoide

Em bovinos e em humanos, a fecundação in vitro (FIV) convencional é rotina: coloca-se o oócito maduro com espermatozoides capacitados e a fecundação acontece na placa. No cavalo, isso praticamente não funciona. O principal obstáculo é a dificuldade de capacitar o espermatozoide equino in vitro de forma que ele consiga atravessar a zona pelúcida.

A injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI) resolve o problema pulando essa etapa. Um único espermatozoide é imobilizado e injetado diretamente no citoplasma do oócito com uma micropipeta. A técnica, que começou como experimento, hoje é a base de programas comerciais de produção de embriões equinos em vários países.

Etapa 1: aspiração folicular (OPU)

Os oócitos são colhidos por aspiração folicular transvaginal guiada por ultrassom, a OPU (ovum pick-up). Uma agulha acoplada ao transdutor atravessa a parede vaginal e entra em cada folículo visível no ovário. O conteúdo é aspirado e o folículo é lavado repetidas vezes, porque no cavalo o complexo cumulus-oócito fica bem aderido à parede folicular.

Diferente da colheita de embrião por lavado uterino, a OPU não depende de a égua ovular nem de o embrião sobreviver no útero. Por isso ela abre portas para éguas idosas, éguas com problemas uterinos e éguas em competição.

Etapa 2: maturação in vitro

A maioria dos oócitos aspirados vem de folículos imaturos. No laboratório, eles passam por maturação in vitro por cerca de um dia em meio específico e estufa controlada. Ao final, a equipe remove as células do cumulus e procura o primeiro corpúsculo polar, sinal de que o oócito chegou à metáfase II e está apto a ser injetado.

Oócitos podem ser mantidos em temperatura ambiente por algumas horas antes da maturação. Isso viabiliza o transporte do haras até o laboratório, um detalhe logístico que faz a ICSI funcionar em escala.

Etapa 3: a injeção

Na ICSI equina, a perfuração da zona pelúcida e da membrana costuma ser feita com um piezo drill, um dispositivo que gera pulsos vibratórios na pipeta. O espermatozoide é imobilizado, aspirado pela cauda e depositado no citoplasma.

Como cada oócito recebe um único espermatozoide, uma palheta de sêmen congelado pode render várias sessões. Isso vale muito para garanhões mortos, castrados ou de sêmen escasso.

Etapa 4: cultivo até blastocisto

Os zigotos vão para cultivo em baixa tensão de oxigênio e são avaliados ao longo dos dias seguintes. A clivagem aparece nos primeiros dias; os blastocistos costumam se formar entre o 7º e o 10º dia de cultivo. Apenas uma fração dos oócitos injetados chega a blastocisto, e essa fração varia muito entre doadoras, garanhões e laboratórios.

EtapaO que se medePor que importa
OPUFolículos aspirados, oócitos recuperadosDefine o potencial da sessão
MaturaçãoOócitos em metáfase IISó eles podem ser injetados
ICSIOócitos injetados, clivagemIndica sucesso da fecundação
CultivoBlastocistos por oócito injetadoO número que vira prenhez

Transferência: a fresco ou vitrificado

O blastocisto pode ser transferido a fresco para uma receptora sincronizada ou vitrificado e mantido em nitrogênio líquido até a transferência. A vitrificação dá flexibilidade: separa a produção do embrião da disponibilidade de receptoras e permite escolher o melhor momento da temporada.

A combinação entre o dia de desenvolvimento do embrião e o dia do ciclo da receptora é uma das variáveis mais estudadas para melhorar a taxa de prenhez. Voltaremos a esse tema em um artigo próprio.

Equipe Tucovet Select

Escrito pela equipe do Laboratório Select, laboratório de ICSI equina em Porto Feliz - SP. Encontrou um erro ou quer sugerir um tema? Escreva para contato@tucovet.com.br.