Por que não basta juntar óvulo e espermatozoide
Em bovinos e em humanos, a fecundação in vitro (FIV) convencional é rotina: coloca-se o oócito maduro com espermatozoides capacitados e a fecundação acontece na placa. No cavalo, isso praticamente não funciona. O principal obstáculo é a dificuldade de capacitar o espermatozoide equino in vitro de forma que ele consiga atravessar a zona pelúcida.
A injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI) resolve o problema pulando essa etapa. Um único espermatozoide é imobilizado e injetado diretamente no citoplasma do oócito com uma micropipeta. A técnica, que começou como experimento, hoje é a base de programas comerciais de produção de embriões equinos em vários países.
Etapa 1: aspiração folicular (OPU)
Os oócitos são colhidos por aspiração folicular transvaginal guiada por ultrassom, a OPU (ovum pick-up). Uma agulha acoplada ao transdutor atravessa a parede vaginal e entra em cada folículo visível no ovário. O conteúdo é aspirado e o folículo é lavado repetidas vezes, porque no cavalo o complexo cumulus-oócito fica bem aderido à parede folicular.
Diferente da colheita de embrião por lavado uterino, a OPU não depende de a égua ovular nem de o embrião sobreviver no útero. Por isso ela abre portas para éguas idosas, éguas com problemas uterinos e éguas em competição.
Etapa 2: maturação in vitro
A maioria dos oócitos aspirados vem de folículos imaturos. No laboratório, eles passam por maturação in vitro por cerca de um dia em meio específico e estufa controlada. Ao final, a equipe remove as células do cumulus e procura o primeiro corpúsculo polar, sinal de que o oócito chegou à metáfase II e está apto a ser injetado.
Oócitos podem ser mantidos em temperatura ambiente por algumas horas antes da maturação. Isso viabiliza o transporte do haras até o laboratório, um detalhe logístico que faz a ICSI funcionar em escala.
Etapa 3: a injeção
Na ICSI equina, a perfuração da zona pelúcida e da membrana costuma ser feita com um piezo drill, um dispositivo que gera pulsos vibratórios na pipeta. O espermatozoide é imobilizado, aspirado pela cauda e depositado no citoplasma.
Como cada oócito recebe um único espermatozoide, uma palheta de sêmen congelado pode render várias sessões. Isso vale muito para garanhões mortos, castrados ou de sêmen escasso.
Etapa 4: cultivo até blastocisto
Os zigotos vão para cultivo em baixa tensão de oxigênio e são avaliados ao longo dos dias seguintes. A clivagem aparece nos primeiros dias; os blastocistos costumam se formar entre o 7º e o 10º dia de cultivo. Apenas uma fração dos oócitos injetados chega a blastocisto, e essa fração varia muito entre doadoras, garanhões e laboratórios.
| Etapa | O que se mede | Por que importa |
|---|---|---|
| OPU | Folículos aspirados, oócitos recuperados | Define o potencial da sessão |
| Maturação | Oócitos em metáfase II | Só eles podem ser injetados |
| ICSI | Oócitos injetados, clivagem | Indica sucesso da fecundação |
| Cultivo | Blastocistos por oócito injetado | O número que vira prenhez |
Transferência: a fresco ou vitrificado
O blastocisto pode ser transferido a fresco para uma receptora sincronizada ou vitrificado e mantido em nitrogênio líquido até a transferência. A vitrificação dá flexibilidade: separa a produção do embrião da disponibilidade de receptoras e permite escolher o melhor momento da temporada.
A combinação entre o dia de desenvolvimento do embrião e o dia do ciclo da receptora é uma das variáveis mais estudadas para melhorar a taxa de prenhez. Voltaremos a esse tema em um artigo próprio.