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Quem conhece a ICSI de perto se preocupa menos: o que revela a pesquisa de Niamh Lewis

Um levantamento com 429 veterinários e criadores de 18 países, publicado no Equine Veterinary Journal em 2026, mostra que a familiaridade com a OPU-ICSI muda a percepção sobre a técnica, e que o bem-estar da égua é a prioridade de todos.

ReproduçãoIntermediário17 out 202612 min
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O estudo em uma frase

A professora Niamh Lewis, da University College Dublin, e uma equipe internacional que inclui Juan Cuervo-Arango, Pouya Dini e Siobhan Mullan publicaram no Equine Veterinary Journal (2026) o primeiro levantamento que compara o que veterinários e criadores, com e sem experiência direta, pensam sobre a aspiração folicular (OPU) seguida de ICSI em éguas.

O contexto é importante. Em 2024, o Studbook do Sueco de Sangue Quente anunciou que deixaria de registrar potros produzidos por OPU-ICSI a partir de março de 2025, e o tema ganhou as redes sociais. Os autores quiseram entender, com dados, de onde vêm as opiniões.

Como a pesquisa foi feita

Foram três questionários aplicados em 2024:

QuestionárioPara quemRespostas
CriadoresCriadores de cavalos de esporte, em evento na Irlanda e por e-mail de clínicas de reprodução na Europa225
Veterinários de OPUInscritos no primeiro Simpósio Internacional de OPU Equina92
ClínicosMembros da federação europeia de associações de veterinários de equinos (FEEVA)112

Seis perguntas eram comuns a todos. Para comparar, os autores separaram as respostas em quatro grupos: veterinários que não fazem OPU, veterinários que fazem OPU, criadores que não usam a técnica e criadores que usam. Cerca de 70% das respostas vieram da Irlanda e da Holanda; o Brasil também participou.

O achado central: familiaridade muda a percepção

Na pergunta "quão desafiadora, do ponto de vista ético, você considera a OPU-ICSI?", a proporção que deu nota 4 ou 5 (numa escala de 1 a 5) foi:

GrupoNota 4 ou 5
Veterinários que não fazem OPU58,8%
Criadores que não usam a técnica55,2%
Veterinários que fazem OPU35,2%
Criadores que usam a técnica19,6%

O padrão se repete em outras perguntas. Quem não usa a técnica avaliou um risco maior para a reputação do setor (média 3,4 a 3,7, contra 2,7 a 2,8 de quem usa). Sobre a decisão sueca, concordaram 80% dos criadores que não usam a técnica, contra 12,2% dos criadores que a usam, e 63,8% dos veterinários sem OPU, contra 8,3% dos veterinários que a realizam.

Os autores discutem duas explicações possíveis. A primeira: quem está perto do procedimento conhece a realidade prática e tem menos "medo do desconhecido". A segunda: a rotina poderia normalizar o procedimento. Os próprios dados enfraquecem a segunda hipótese, porque o número de OPUs realizadas por veterinário não mudou a forma como ele avaliava a técnica. Os autores também lembram que pode haver autosseleção: quem já se preocupa menos tende a adotar a técnica.

Todos concordam: a égua vem primeiro

Este é o ponto mais forte do estudo, e une todos os grupos. O bem-estar da égua foi o principal tema nos comentários dos quatro grupos. A maioria de todos os grupos deu nota máxima para "conforto da égua" e "risco para a égua". Não houve diferença entre os grupos na importância dada ao risco.

Entre os veterinários que realizam OPU, 85,3% deram nota máxima à responsabilidade com a égua, à frente da responsabilidade com o proprietário, com a clínica ou com o órgão regulador. Os autores leem isso como sinal de integridade profissional.

O que a ciência já sabe sobre o procedimento

O artigo resume a evidência disponível, e ela é encorajadora:

  • Complicações graves são raras. Uma revisão das mesmas autoras, com cerca de 9.500 procedimentos relatados por 71 profissionais em 12 meses, aponta taxa de complicações graves de 0,1 a 0,3%, em linha com outros levantamentos.
  • A punção do ovário em si não foi associada a dor adicional em estudos experimentais que compararam a OPU com um procedimento simulado, em que o ovário é apenas manipulado pelo reto. As duas situações elevam cortisol, escores de dor facial e frequência cardíaca, o que mostra a importância do manejo e da analgesia.
  • O desconforto, quando existe, é transitório. Um levantamento com proprietários (913 procedimentos) relatou alteração de comportamento em até 25% das éguas, que desapareceu em até 3 dias.
  • Eficiência. A introdução do artigo lembra que, em condições otimizadas, a OPU-ICSI se tornou o método mais eficiente para produzir potros, comparado à inseminação artificial e à transferência de embriões. Em 2023, mais de 16 mil embriões equinos produzidos in vitro foram registrados no mundo.

Há também uma diferença que merece atenção. Cerca de metade dos criadores que usam a técnica percebeu algum desconforto nas 72 horas seguintes; 50,4% não perceberam nenhum, e apenas 1,6% relataram dor extrema. Os autores defendem que a percepção do proprietário, que conhece o comportamento normal da égua, seja levada em conta.

Uso responsável: o que os próprios usuários já fazem

Os dados mostram que quem usa a técnica não a usa de qualquer jeito. 40,1% dos criadores que já usaram OPU-ICSI decidiram não aspirar uma égua específica por razões de bem-estar ou ética. E 58,9% dos veterinários de OPU já enfrentaram situações eticamente difíceis, principalmente éguas com dor excessiva ou em mau estado geral.

Por outro lado, 70,3% dos veterinários relataram já ter sentido pressão de clientes para fazer uma OPU que não consideravam adequada. É o lado do problema que boas práticas e comunicação clara ajudam a resolver.

Os criadores apontaram as indicações que consideram legítimas: infertilidade (58,9%), idade avançada (30,1%), morte da égua (5,5%), melhoramento genético (4,1%) e manter a égua em competição de alto nível (1,4%). Mesmo entre os criadores que acham a técnica "extremamente desafiadora", 41,2% ainda gostariam de poder usá-la em certas situações.

E a diversidade genética?

Os criadores, principalmente os que não usam a técnica, se preocupam com o efeito da OPU-ICSI sobre o pool genético. Os autores colocam o tema em perspectiva: na plataforma Hippomundo, a égua com mais filhos registrados tem 70 potros, enquanto o garanhão mais prolífico tem 6.312. Citam ainda um estudo de 2020 (Palmer e Chavatte-Palmer) segundo o qual aumentar a contribuição das éguas acelera o progresso genético. Reconhecem, porém, que faltam estudos específicos sobre a OPU-ICSI, e sugerem que isso seja medido com ferramentas genômicas.

Regulação: a maioria quer regras claras

No total, 72% acham que alguma forma de regulação pode ser adequada, incluindo 65,9% dos veterinários que fazem OPU e 58,3% dos criadores que usam a técnica. As sugestões de quem deveria regular foram: entidades veterinárias (41%), studbooks (26,9%) e governo ou legislação (26,9%). Os autores observam que vários studbooks já limitam indiretamente o uso da técnica, ao restringir o número de potros de transferência de embrião registrados por égua por ano.

O que isso significa para o criador brasileiro

  1. Informação muda a percepção. Quem conhece a técnica por dentro tende a vê-la como ferramenta legítima de reprodução, e não como ameaça.
  2. O bem-estar da égua é o critério que une todos. A escolha da doadora, a analgesia, a experiência de quem aspira e o critério para dizer "não" fazem parte de um bom programa de OPU-ICSI.
  3. Transparência gera confiança. Os autores concluem que mais transparência e colaboração entre profissionais e criadores podem construir consenso. O artigo cita até um documento internacional de 2024 com informação imprecisa sobre a ICSI ("a ICSI pode ser dolorosa"). A ICSI em si acontece no laboratório, sobre o oócito, e não na égua.
  4. Escolha laboratório e equipe com critério. Os próprios veterinários apontaram a competência do operador como fator ético, e analgesia e controle da dor como a principal prioridade de pesquisa (74,3%).

Limites do estudo

Para ler o artigo com o olhar crítico que ele merece:

  • É uma pesquisa de opinião, com possível viés de motivação: quem tem opinião mais negativa pode ter tido mais vontade de responder.
  • Não foi possível calcular a taxa de resposta, porque os questionários circularam por link aberto.
  • Cerca de 70% das respostas vieram de dois países (Irlanda e Holanda), e 93% dos criadores trabalhavam com cavalos de sangue quente. A realidade brasileira, com Quarto de Milha, Mangalarga Marchador e outras raças, pode ser diferente.
  • A comparação entre grupos foi feita depois de observar os dados, sem hipótese definida antes.
  • Quatro autores realizam OPU na rotina clínica, o que foi declarado como conflito de interesse.

Considerações do Laboratório Select

O artigo de Lewis cita a taxa de 0,1 a 0,3% de complicações. Fomos às fontes primárias para entender o que esse número inclui, e o que fica de fora.

Equipe Tucovet Select

Escrito pela equipe do Laboratório Select, laboratório de ICSI equina em Porto Feliz - SP. Encontrou um erro ou quer sugerir um tema? Escreva para contato@tucovet.com.br.