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Teste genético do embrião equino: o que um estudo da Universidade de Gent mostrou sobre cromossomos e doenças hereditárias

Pesquisadores da Bélgica analisaram embriões equinos produzidos por ICSI com uma técnica que lê, ao mesmo tempo, o número de cromossomos e os genes herdados de cada pai. Publicado na Scientific Reports em 2024, o estudo é uma prova de conceito do teste genético pré-implantacional em cavalos.

GenômicaAvançado17 out 202612 min
GENÔMICA

O que é o estudo

Tine De Coster, Katrien Smits e colegas da Universidade de Gent e da KU Leuven (Bélgica), com colaboradores da Universidade de Córdoba (Espanha) e da Universidade Nacional de La Plata (Argentina), publicaram em 2024 na Scientific Reports (grupo Nature) o primeiro trabalho de teste genético pré-implantacional (PGT) de genoma inteiro em embriões equinos.

O PGT é a análise genética de algumas células retiradas do embrião antes da transferência para a receptora. Ele tem duas frentes principais:

  • PGT-A, que procura aneuploidias. Aneuploidia é a falta ou o excesso de um cromossomo. O cavalo normal tem dois de cada.
  • PGT-M, que procura variantes de um único gene, ligadas a doenças hereditárias ou a características como a pelagem.

Até então, o PGT em cavalos se limitava a testes por PCR de no máximo 33 regiões do DNA (sexo, identificação, pelagem, algumas doenças). Não havia nenhuma publicação de PGT-A em equinos. Os autores testaram uma técnica já usada em humanos e bovinos que faz as duas análises de uma vez.

Como a pesquisa foi feita

Os embriões foram produzidos por ICSI no laboratório de Gent, a partir de oócitos de ovários de abatedouro de quatro éguas e de sêmen congelado de um garanhão. Os oócitos maturaram por 31 a 33 horas e os embriões foram cultivados até o dia 12.

EtapaO que foi feito
BiópsiaRetirada de 10 a 20 células do trofectoderma, a camada externa do blastocisto que forma a placenta, no dia em que o blastocisto se definia
Amostra de controleO blastocisto inteiro, coletado logo depois da biópsia, para conferir se a biópsia dizia a verdade
Embriões parados6 embriões que pararam antes de virar blastocisto, com 26 células analisadas uma a uma
GenotipagemChip comercial com mais de 70.000 SNPs (pontos do DNA que variam entre indivíduos)
AnáliseHaplarritmia (haplarithmisis), que combina contagem de cromossomos e haplotipagem
DNA da famíliaOvário das éguas, sêmen do garanhão e sangue dos pais do garanhão, ou um embrião irmão

Haplotipagem é descobrir qual bloco de DNA de cada cromossomo o embrião herdou da mãe e qual herdou do pai. Para isso, o laboratório precisa do DNA dos pais e de um parente (um avô ou um embrião irmão). Com esse mapa, a técnica mostra três coisas ao mesmo tempo: quantas cópias de cada cromossomo existem, de qual dos pais veio um erro e qual versão de um gene o embrião carrega.

Principais resultados

Qualidade das amostras

Cinco das 14 biópsias e 7 das 26 células isoladas não deram resultado. Nas amostras que funcionaram, o chip conseguiu ler em média:

AmostraCobertura média dos SNPsInconsistência mendeliana
Blastocisto inteiro70,54%0,91%
Biópsia do trofectoderma55,83%3,14%
Célula isolada45,19%18,94%

A inconsistência mendeliana mede erros de leitura: genótipos impossíveis de acordo com os pais. Quanto menos células na amostra, mais ruído. O número de SNPs úteis foi de cerca de 20.000 quando o mapa dos pais foi montado com um embrião irmão, e de 7.229 quando foi montado com os avós paternos.

PGT-A: a biópsia previu o estado do embrião

Em todos os 9 pares analisados com sucesso, a biópsia previu corretamente se o blastocisto era euploide (número normal de cromossomos) ou tinha uma aneuploidia em todas as células.

Dos 14 blastocistos, 12 eram euploides e 2 eram aneuploides. Os dois tinham perdido um cromossomo de origem materna (o 31 em um embrião, o 28 no outro). Como o erro estava em todas as células, ele veio da formação do óvulo (erro meiótico). O artigo lembra que perdas de cromossomos pequenos estão associadas à morte fetal até os 65 dias de gestação.

Em um desses embriões, a biópsia mostrou ainda várias alterações extras que não apareceram no blastocisto inteiro. Os autores interpretam isso como mosaicismo de baixo grau: algumas células com erro misturadas a células normais, vindas de divisões tardias do embrião.

PGT-M: os genes herdados conferem

Os autores olharam cinco genes em cada par biópsia e blastocisto:

GeneCondiçãoFrequência de portadores citada no artigo
GBE1GBED, deficiência da enzima ramificadora do glicogênio7% no Quarto de Milha, 8% no Paint
PLOD1WFFS, síndrome do potro frágil do sangue quenteaté 17%, conforme a raça
MUTYHAbiotrofia cerebelar5 a 9% nos Árabes
B3GALNT2Hidrocefalia congênita13,3 a 17,3% nos Frísios
STX17Pelagem tordilha(característica dominante, sem doença)

Das 90 leituras (9 pares, 5 genes, cópia materna e paterna), 4 foram inconclusivas, todas no mesmo embrião com perdas cromossômicas e mosaicismo. Em todas as outras, a cópia herdada indicada pela biópsia foi confirmada no blastocisto.

Os autores destacam uma vantagem desse método sobre o PCR. Ao amplificar o DNA de poucas células, o PCR pode "perder" um dos dois alelos, e um embrião portador pode ser lido como normal. O artigo cita o gene GBE1 como um local sujeito a esse problema. A haplotipagem lê dezenas de SNPs ao redor do gene, e por isso depende menos de um único ponto.

Embriões que pararam: erros em quase todos

Dos 6 embriões que pararam de se desenvolver antes do blastocisto, só 1 tinha todas as células normais. Os outros 5 (83%) tinham erros em quase todas as células, incluindo dois triploides, com um conjunto inteiro de cromossomos maternos a mais. Esta é a primeira evidência sólida de erros de genoma inteiro em embriões equinos.

EstágioCom erro neste estudoReferências citadas pelos autores
Embriões parados83% (5 de 6)Humanos: 93 a 94%
Blastocistos14% (2 de 14)Humanos: 25 a 69%. Bovinos: 14 a 31%. Estudo equino anterior por citogenética: 40%

A diferença grande entre embriões parados e blastocistos reforça uma ideia já vista em outras espécies: boa parte dos embriões que param no laboratório para por causa de erros cromossômicos.

O que isso significa para o criador brasileiro

  1. A biópsia do trofectoderma consegue representar o embrião. Quando funcionou, ela previu o estado cromossômico e os genes herdados do blastocisto correspondente.
  2. Doenças relevantes no Brasil entram na lista. A GBED, com 7% de portadores no Quarto de Milha é apontada no artigo como responsável por 3% dos abortos espontâneos e causa a morte do potro afetado até as 18 semanas de idade. Um teste de embrião permitiria transferir só embriões livres da doença, mesmo quando pai e mãe são portadores.
  3. O método exige DNA da família. São necessários o DNA da égua, do garanhão e de um avô ou de um embrião irmão. O DNA da égua pode vir de uma amostra de sangue na OPU. O do garanhão é mais difícil, porque muitas vezes só se tem acesso a doses caras de sêmen. Os autores dizem que o uso prático exigiria a colaboração das centrais.
  4. Embriões lentos podem ganhar uma segunda chance. Hoje alguns centros descartam blastocistos de desenvolvimento lento, que têm menor taxa de prenhez. Como embriões fêmeas tendem a se desenvolver mais devagar, esse descarte pode desequilibrar a proporção de sexos. Os autores sugerem que o PGT-A poderia separar os lentos com erro grave dos lentos euploides.
  5. O objetivo seria ordenar embriões. Como o embrião equino tem alto valor, os autores imaginam o uso do PGT-A para excluir embriões com erros graves e ordenar os demais, sem descartar todo embrião com qualquer alteração, como se faz em bovinos.

Limites do estudo

  • Amostra pequena. Foram 14 blastocistos e 6 embriões parados, de quatro éguas e um único garanhão. Os próprios autores dizem que são necessárias mais amostras para conclusões gerais.
  • Oócitos de abatedouro. As éguas eram de identidade desconhecida e os oócitos esperaram 15 a 18 horas antes da maturação. A realidade de um programa de OPU com doadoras conhecidas pode ser diferente.
  • Nenhum embrião foi transferido. Os blastocistos foram usados como controle da biópsia. O estudo não mede prenhez, perda gestacional ou nascimento após o teste.
  • Taxa de falha. Cinco das 14 biópsias não deram resultado.
  • Mosaicismo. Uma biópsia sozinha não consegue dizer com precisão quanto do embrião tem células alteradas. O artigo lembra que embriões mosaicos podem gerar nascimentos saudáveis.
  • Resolução limitada. O chip de 70 mil SNPs deixou alguns erros sem origem definida. O chip de maior densidade disponível para cavalos (671 mil SNPs, 96 amostras por corrida) não é viável em custo para PGT, segundo os autores.
  • Embriões não vitrificados. O estudo trabalhou com embriões frescos e não testou a combinação de biópsia com vitrificação.

Considerações do Laboratório Select

Este artigo é uma prova de conceito bem feita. Ele mostra que, a partir de 10 a 20 células de um blastocisto produzido por ICSI, é possível contar cromossomos e ler genes de interesse com uma única análise. Para a reprodução assistida equina, isso abre um caminho importante: escolher qual embrião transferir com informação genética, além da avaliação visual e da velocidade de desenvolvimento.

A ICSI é a base desse caminho. O artigo lembra que cerca de 18 a 26% dos oócitos injetados chegam a blastocisto transferível, e que a prenhez após transferência de embriões in vitro vitrificados fica em torno de 70%. Cada blastocisto é resultado de muito trabalho de laboratório. Saber, antes da transferência, quais têm erros graves ajudaria a usar melhor as receptoras e a temporada da égua, já que perdas depois do dia 35 costumam deixar a égua vazia naquele ano.

A vitrificação é o complemento natural. A análise genética leva tempo, e o embrião precisa esperar o resultado. Em um fluxo clínico, faria sentido biopsiar o blastocisto, vitrificá-lo e só transferir depois do laudo. O artigo cita estudos anteriores em que a biópsia por agulha e a coleta de células que saem pela zona pelúcida tiveram resultados de prenhez inicial semelhantes aos de embriões não biopsiados. Este estudo não testou a sequência biópsia, vitrificação e transferência. Esse dado ainda falta.

O que falta, na nossa leitura, para o PGT de genoma inteiro chegar à rotina dos programas de ICSI:

  • Estudos com transferência, comparando embriões testados e não testados, com taxa de prenhez, perda gestacional e potros nascidos.
  • Protocolos que juntem biópsia e vitrificação, com dados de sobrevivência e prenhez após o aquecimento.
  • Acesso ao DNA dos garanhões, idealmente em um banco genômico, como os autores propõem. O uso intenso de certos garanhões tornaria esse banco útil para muitos cruzamentos.
  • Custo viável, provavelmente por métodos de sequenciamento, que os autores citam como alternativa ao chip.
  • Validação em outras raças e condições, incluindo oócitos de OPU de doadoras conhecidas, como acontece na rotina brasileira.

O Laboratório Select acompanha essa linha de pesquisa porque ela aponta para onde a ICSI caminha: cada embrião produzido com precisão, avaliado com mais informação e transferido com mais segurança.

Equipe Tucovet Select

Escrito pela equipe do Laboratório Select, laboratório de ICSI equina em Porto Feliz - SP. Encontrou um erro ou quer sugerir um tema? Escreva para contato@tucovet.com.br.