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Casco e claudicação no potro Quarto de Milha: o que mostram os seis primeiros meses de treino

Um estudo da Colorado State University acompanhou 42 Quarto de Milha jovens nos seis primeiros meses de treino, com fotos, radiografias e sensor de movimento. 59,5% tiveram claudicação subclínica, o casco mudou de forma e a diferença entre os lados foi comum, sem associação estatística com a claudicação.

MorfologiaIntermediário19 out 202613 min
MORFOLOGIA

O estudo em uma frase

Gabriella Kawahisa-Piquini, Luke Bass e Lynn Pezzanite, da Colorado State University, com Valerie Moorman, da University of Georgia, publicaram no Equine Veterinary Journal (2023) um estudo prospectivo que pergunta: a idade de início do treino, 2 ou 3 anos, muda o casco e o risco de claudicação no Quarto de Milha?

O casco também é conformação. Ele pode ser avaliado por fora, com foto e régua, e por dentro, com radiografia. Os autores lembram que o casco é apontado como a origem mais comum de claudicação no cavalo. Segundo eles, faltava um estudo sobre o início do treino em cavalos jovens fora das corridas. A hipótese inicial era que os potros de 2 anos teriam mais claudicação. O resultado foi o contrário.

Como o estudo foi feito

Entraram 53 potros do programa de doma da Colorado State University, criados para provas western ou trabalho de fazenda, em duas turmas, entre outubro de 2019 e abril de 2021. No início, os animais tinham cerca de 1,5 ou 2,5 anos e entravam na temporada de 2 ou 3 anos. Completaram os seis meses 42 animais (28 potrancas e 14 castrados). As 11 perdas foram todas no primeiro ano e vieram da pandemia de COVID-19. Segundo o artigo complementar, nenhuma saída teve relação com claudicação ou doença.

ItemComo foi
ManejoUm treinador e um ferrador para todos; casqueamento a cada 6 semanas; sem ferradura
AlojamentoPiquetes com 6 a 8 potros nos 4 primeiros meses; depois, baias individuais
Treino2 horas por dia, 5 dias por semana. Trabalho de chão em redondel nos 4 primeiros meses; nos 2 últimos, redondel e trabalho montado
PausaCerca de 4 semanas sem treino no mês 3
AvaliaçõesMeses 0, 2, 4 e 6, programadas para 1 a 2 semanas depois do casqueamento
Casco por foraFotos lateral, dorsal e da sola, com o cavalo sobre blocos de madeira e régua na imagem
Casco por dentroRadiografias dos quatro cascos, com o ângulo palmar ou plantar da falange distal
ClaudicaçãoSensor inercial (Lameness Locator) e vídeos avaliados de forma cega por 3 especialistas

Nas fotos, os autores mediram comprimento e ângulo da pinça e do talão, altura e ângulo das paredes, largura do casco e medidas da ranilha. Um membro foi considerado claudicante quando o sensor passou de 17 mm nos anteriores ou de 8 mm nos posteriores. Segundo os autores, isso equivale a cerca de grau 2 na escala de 0 a 5 da AAEP.

O que encontraram: claudicação

Em seis meses, 25 dos 42 potros (59,5%) tiveram claudicação subclínica em pelo menos uma avaliação. Nenhum precisou de exame complementar ou tratamento.

GrupoQualquer membroAnterioresPosteriores
Todos (42)59,5% (25)38,1% (16)45,2% (19)
Começaram aos 2 anos (29)48,3% (14)27,6% (8)37,9% (11)
Começaram aos 3 anos (13)84,6% (11)61,5% (8)61,5% (8)
Valor de p (2 x 3 anos)0,040,050,2

A diferença entre as idades apareceu na soma dos seis meses. Em cada avaliação isolada, ela não teve significância estatística.

Os autores sugerem uma explicação: os potros de 3 anos podem ter começado mais tarde justamente por uma claudicação prévia ou por parecerem imaturos aos 2 anos. A altura entra na mesma discussão. Os potros de 2 anos passaram de 141,3 para 147,6 cm na cernelha, e os de 3 anos, de 144,0 para 147,4 cm. No fim, os dois grupos tinham praticamente a mesma altura. Para os autores, isso pode indicar que os potros de 3 anos entraram mais tarde por serem menores no ano anterior. Os dois grupos seguiram o mesmo protocolo de treino, e os autores não atribuem a diferença a trabalho mais pesado.

O que encontraram: a forma do casco

O casco mudou em seis meses. Nos potros de 3 anos, o ângulo palmar da falange distal subiu em média 1,5° nos dois anteriores. Nos de 2 anos, o ângulo plantar caiu nos dois posteriores. Os autores apontam o crescimento como possível causa de parte dessas mudanças. A troca do piquete pela baia coincidiu com outras mudanças: em baia, os talões anteriores ficaram mais altos e mais longos, com ângulo menor. Os autores admitem que parte das mudanças do casco pode vir dessa troca de ambiente.

O artigo também compara membros claudicantes e sadios. Nos anteriores, a comparação soma as quatro avaliações: 25 registros de membro claudicante contra 311 de membro sadio.

AnterioresClaudicanteSadiop
Todos: comprimento da pinça6,11 cm6,34 cm0,03
Todos: comprimento do talão3,62 cm3,96 cm0,01
Todos: altura da parede lateral4,64 cm5,11 cm0,01
Todos: ângulo da pinça57,3°54,9°0,01
2 anos: ângulo da pinça58,4°55,2°0,01
3 anos: largura do casco11,48 cm12,21 cm0,03
3 anos: comprimento da pinça6,02 cm6,45 cm0,03
3 anos: altura da parede lateral4,47 cm5,02 cm0,03
3 anos: altura da parede medial4,58 cm5,15 cm0,02

Nos posteriores, o membro claudicante tinha talão mais longo: 3,74 contra 3,55 cm em todos os potros (p = 0,05) e 3,90 contra 3,50 cm nos de 3 anos (p = 0,01). O ângulo da parede lateral também foi maior nos posteriores claudicantes: 77,7° contra 75,8° em todos os potros e 78,3° contra 75,9° nos de 2 anos (p = 0,04 nos dois casos). A ranilha não diferiu entre membros claudicantes e sadios.

Estudos anteriores tinham associado a claudicação de anterior a outros formatos de casco, como casco em pé com talão longo ou pinça longa com talão baixo. Para os autores, a diferença pode vir da idade, da raça e da função dos cavalos. E deixam claro que o estudo mostra associação: não dá para saber se a forma do casco levou à claudicação ou se a claudicação mudou o casco.

O artigo complementar: cascos desiguais

Com os mesmos 42 potros, o grupo publicou no Journal of Equine Veterinary Science (2023) uma análise da diferença entre os lados. Um par de cascos foi considerado igual quando o ângulo da pinça diferia até 1,5°, e desigual acima disso. No par desigual, o casco de ângulo maior foi chamado de casco alto.

  • Nenhum potro teve os anteriores iguais nas quatro avaliações. Nenhum teve os posteriores iguais nas quatro.
  • 15 dos 42 potros (35,7%) tiveram anteriores desiguais em todas as avaliações. Nos posteriores, foram 19 (45,2%).
  • Nos pares desiguais, a diferença mediana foi de 4,95° nos anteriores e de 5° nos posteriores, com casos acima de 16°.
  • O casco alto foi o esquerdo em 82,5% das avaliações com anteriores desiguais e em 80% das com posteriores desiguais.
  • Em média, a pinça do anterior esquerdo ficou 3,2° mais em pé que a do direito, e a do posterior esquerdo, 2,6°. As diferenças foram significativas nos meses 2, 4 e 6. No mês 0, não houve diferença estatística entre os lados.
ClaudicaçãoAnterioresPosteriores
Avaliações com cascos iguais12,5% (6 de 48)10,3% (4 de 39)
Avaliações com cascos desiguais15,8% (19 de 120)20,9% (27 de 129)
Valor de p0,640,098

Também não houve diferença de claudicação entre o casco alto e o baixo (p = 0,34 nos anteriores e p = 0,29 nos posteriores). O ângulo da falange distal não diferiu entre membros claudicantes e sadios: 2,74° contra 2,45° nos anteriores (p = 0,54) e 3,41° contra 2,88° nos posteriores (p = 0,20).

Para explicar o predomínio do lado esquerdo, os autores levantam hipóteses: o tempo de trabalho em círculo para cada lado e a lateralidade do cavaleiro, que não foram registrados, e a mão dominante do ferrador, que era destro. Eles também reconhecem que 1,5° é uma diferença pequena, que pode não ter importância biológica e, às vezes, refletir erro de medida. A introdução cita ainda um estudo com potros Warmblood: cerca de metade passou a preferir avançar o mesmo membro ao pastar, o que levou a cascos desiguais.

O que isso significa para o criador de Quarto de Milha

  1. O casco faz parte da conformação. Foto padronizada com régua permite comparar as mesmas medidas ao longo do tempo. A radiografia mostra a posição do osso dentro do casco.
  2. Avalie o potro antes de começar o treino. No mês 0, 11 dos 42 potros (26,2%) já mancavam. Um exame na entrada registra o que o potro já trazia e dá a base para comparar as avaliações seguintes.
  3. A idade de início, sozinha, não resolve a questão. Quem prepara potros para provas por idade em Tambor, Rédeas ou Apartação decide entre começar aos 2 ou aos 3 anos. Este estudo tem um grupo pequeno de 3 anos e possível viés de seleção. Os autores sugerem que mais dados por idade podem ajudar as associações a definir o momento de início do treino.
  4. O manejo pode mudar o casco. A troca do piquete pela baia coincidiu com mudanças nos talões. Os autores citam um estudo com potros Árabes em que muitas mudanças no casco anterior ocorreram entre 4 e 8 meses de idade. Na leitura do Laboratório Select, o acompanhamento do casco pode começar bem antes da doma.
  5. Não descarte um reprodutor por casco desigual sem contexto. Nestes potros, a diferença entre os lados foi frequente, e a claudicação não diferiu com significância estatística entre cascos iguais e desiguais em seis meses. Reprodutores adultos não foram avaliados.

Limites do estudo

  • Amostra pequena. Foram só 13 potros de 3 anos. O cálculo de amostra previa 17 por grupo. O sexo não entrou na análise.
  • Sem grupo controle. Não houve potros da mesma idade sem treino. Parte das mudanças pode vir do crescimento ou do manejo.
  • Perdas na pandemia. No primeiro ano, 11 de 29 potros saíram antes do fim.
  • Origem da claudicação não investigada. Sem bloqueios anestésicos ou imagem diagnóstica, não se sabe se a dor vinha do casco ou de outra parte do membro.
  • Casqueamento. O intervalo entre o casqueamento e a coleta não foi padronizado em todas as avaliações. O artigo principal fala em 1 a 2 semanas, e o complementar, em 2 a 3 semanas.
  • Pausa no meio do treino. Os autores reconhecem que as cerca de 4 semanas sem treino podem ter agravado claudicações que já existiam.
  • Associação sem causa, em seis meses. O desenho não mostra o que veio primeiro, e o período pode ser curto para efeitos de longo prazo.
  • Um único ambiente. Uma universidade no Colorado, um treinador, um ferrador e potros sem ferradura. Outros climas, pisos e manejos podem dar outro resultado.
  • Nenhum dos dois artigos estudou herança. Estes dados não dizem se essas medidas passam de pais para filhos.

Considerações do Laboratório Select

Dois pontos de método pedem cautela.

O primeiro é a unidade de análise. A comparação entre membros claudicantes e sadios conta cada membro em cada avaliação, e o mesmo potro aparece várias vezes. O artigo não deixa claro como a análise tratou essa repetição. As diferenças são de poucos milímetros: 2,3 mm no comprimento da pinça dos anteriores e 7,3 mm na largura do casco dos potros de 3 anos.

O segundo é o número de testes. Pela nossa contagem, as Tabelas 2 e 3 do artigo principal trazem 84 comparações entre membros claudicantes e sadios. Com o limite de 5%, seria esperado cerca de 4 resultados significativos só por acaso. O estudo encontrou 13. Parte do sinal pode ser real. As comparações, porém, não são independentes, porque os potros de 2 e 3 anos também estão no grupo "todos". Cada resultado isolado ainda precisa de confirmação. O artigo não descreve correção para esse número de comparações.

Há também trechos do texto que não batem com as tabelas. A discussão fala em queda do ângulo da pinça nos anteriores claudicantes, e a Tabela 2 mostra ângulo maior. O resumo dá, para a parede lateral dos potros de 3 anos, os valores que a tabela atribui a todos os potros. A discussão afirma que houve mais claudicação de anterior, e a Tabela 1 mostra 16 potros com claudicação de anterior e 19 de posterior. Neste texto, usamos os números das tabelas.

O trabalho do Laboratório Select acontece na bancada, sobre o oócito e o embrião. A escolha dos pais vem antes, e o casco faz parte dela. Essa escolha merece medida, contexto e cautela com conclusões rápidas.

Equipe Tucovet Select

Escrito pela equipe do Laboratório Select, laboratório de ICSI equina em Porto Feliz - SP. Encontrou um erro ou quer sugerir um tema? Escreva para contato@tucovet.com.br.