O estudo
O trabalho é de Renata Farinelli de Siqueira, do Departamento de Zootecnia da Universidade Estadual Paulista (UNESP), em Jaboticabal (SP), com Lavínia Andressa Brito, Isabela Marques Figueiredo e Larissa Santos dos Anjos. A BMC Veterinary Research recebeu o artigo em 15 de março de 2026 e o aceitou em 23 de julho de 2026. A FAPESP financiou a pesquisa. Os autores declararam não ter conflito de interesse.
Lemos o manuscrito aceito ("Article in Press"), antes da edição final. A revista avisa que ele pode conter erros que afetam o conteúdo.
Os autores partiram de duas hipóteses. A primeira: cavalos de Tambor, Rédeas e Ranch Sorting diferem em algumas medidas de passada, ângulo, aceleração vertical e assimetria, mesmo quando avaliados nas mesmas condições. A segunda: a conformação estática explicaria pouco dessas diferenças.
As três modalidades cobram coisas diferentes do cavalo. O Tambor exige arrancada e curvas fechadas. As Rédeas exigem desaceleração controlada, reunião, giros e esbarradas. O Ranch Sorting exige mudanças curtas e frequentes de direção no trabalho com o gado. Na avaliação, nenhum cavalo fez essas manobras. Todos foram medidos em linha reta.
Como o estudo foi feito
Os autores recrutaram 90 cavalos adultos, 30 por modalidade, em centros de treinamento do estado de São Paulo. A amostra foi de conveniência, por contato com proprietários, treinadores e locais de competição ligados a provas oficiais da ABQM. Cada cavalo precisava de pelo menos um ano seguido de treino e competição na modalidade.
Ficaram de fora os cavalos com claudicação de grau 2 ou mais (em 5) na escala da AAEP, ao exame visual, e os que tinham dor, aumento de volume, derrame articular ou outra alteração musculoesquelética à palpação.
| Item | Como foi feito |
|---|---|
| Amostra | 90 cavalos recrutados; 57 analisados, 19 por modalidade |
| Pista | Reta de areia, 50 m de ida e 50 m de volta |
| Andamentos | Passo (1,2 a 1,8 m/s) e trote (3,0 a 4,0 m/s), com o cavalo puxado à mão |
| Sensores | Sensores inerciais ProMove-mini (sistema Equi-Pro), 200 leituras por segundo, na nuca, na cernelha, no sacro e nos quatro membros |
| Passadas | Pelo menos 20 passadas válidas seguidas por andamento |
| Medidas lineares | Fita métrica, cavalo em estação, sempre pelo mesmo avaliador |
| Ângulos | Fotos laterais padronizadas do lado direito, com pontos marcados por palpação e medidos no programa ImageJ |
Os ângulos incluíram a inclinação da escápula e as articulações escápulo-umeral, úmero-radial, metacarpofalangeana, coxofemoral, femorotibial, tibiometatarsiana e metatarsofalangeana.
O estudo usou dois tipos de medida de assimetria:
- Mindiff e Maxdiff: a diferença, em milímetros, entre o lado esquerdo e o direito no ponto mais baixo (Mindiff) ou mais alto (Maxdiff) do movimento vertical da cabeça, da cernelha ou do sacro, em cada passada. Quanto menor o valor, mais parecido é o movimento dos dois lados.
- Δ (delta): a diferença absoluta entre o membro esquerdo e o direito em uma variável, como aceleração vertical ou amplitude de rotação. Os autores usaram o Δ como medida principal nos membros, por ser a mais estável.
A velocidade média não diferiu entre as modalidades (p > 0,10). Para a conformação, os autores usaram análise de componentes principais (PCA) e modelos de regressão testados por validação cruzada.
Os cavalos tinham cerca de 6 anos. Dos 57, 33 eram éguas.
| Característica | Tambor | Rédeas | Ranch Sorting |
|---|---|---|---|
| Idade (anos) | 6,22 | 6,14 | 6,2 |
| Éguas / castrados / garanhões | 11 / 2 / 6 | 10 / 1 / 8 | 12 / 0 / 7 |
| Peso estimado (kg) | 464,15 | 449,28 | 432,64 |
| Altura na cernelha (cm) | 155,33 | 146,65 | 150,30 |
O que o estudo encontrou
Na cabeça, na cernelha e no sacro, o Tambor teve a menor assimetria
As diferenças entre modalidades apareceram na cabeça, na cernelha e no sacro, ao passo e ao trote. Todas tiveram p < 0,001.
| Segmento e andamento | Tambor | Rédeas | Ranch Sorting |
|---|---|---|---|
| Cabeça, passo | 2,1 mm | 3,2 mm | 3,8 mm |
| Cabeça, trote | 1,9 mm | 4,2 mm | 5,3 mm |
| Cernelha, passo | 2,0 mm | 7,3 mm | 6,2 mm |
| Cernelha, trote | 2,0 mm | 7,1 mm | 7,5 mm |
| Sacro, passo | 2,0 mm | 8,3 mm | 5,3 mm |
| Sacro, trote | 1,8 mm | 8,9 mm | 6,9 mm |
Mindiff médio, arredondado. Fonte: Tabela 2 do manuscrito.
Os cavalos de Tambor ficaram perto de 2 mm em todos os segmentos. As Rédeas tiveram os maiores valores no sacro e, ao passo, na cernelha. O Ranch Sorting teve os maiores valores na cabeça. No trote, a cernelha ficou parecida entre Rédeas e Ranch Sorting. O Maxdiff seguiu o mesmo desenho.
Nos posteriores, o Ranch Sorting teve, em geral, a maior diferença entre os lados
Nos membros, as diferenças mais consistentes apareceram nos posteriores, em aceleração vertical e em amplitude de rotação.
| Medida nos posteriores (Δ) | Andamento | Tambor | Rédeas | Ranch Sorting |
|---|---|---|---|---|
| Amplitude da aceleração vertical | Passo | 7,74 | 4,87 | 16,67 |
| Amplitude da aceleração vertical | Trote | 11,99 | 4,80 | 17,26 |
| Rotação no eixo longitudinal | Trote | 54,29 | 19,27 | 77,61 |
| Rotação no eixo vertical | Trote | 40,15 | 19,15 | 71,48 |
Médias da Tabela 3 do manuscrito (variáveis Δ_az_range, Δ_rom_roll e Δ_rom_yaw), todas com p < 0,001 e q < 0,001. A tabela não informa as unidades.
Aqui a ordem mudou. As Rédeas tiveram os menores valores, e o Tambor ficou no meio. Houve uma exceção: ao passo, na rotação no eixo transversal dos posteriores, o Tambor teve o maior valor (8,43, contra 4,37 nas Rédeas e 3,62 no Ranch Sorting).
Nos anteriores, as diferenças foram poucas e menos consistentes.
Na discussão, os autores escrevem que os cavalos de Tambor tiveram tempo de apoio mais curto e picos de aceleração maiores, e que os de Rédeas tiveram apoio mais longo. Esses valores não aparecem nas tabelas do texto principal.
Na conformação, as modalidades se sobrepuseram
A PCA reuniu as medidas lineares e angulares do corpo. Os dois primeiros componentes explicaram 28,6% da variação (18,6% e 10,0%). No gráfico, os cavalos das três modalidades se misturaram. Um agrupamento automático pelas medidas do corpo também não reproduziu as modalidades. O índice de concordância ficou perto de zero.
A conformação explicou parte do andamento
Os modelos globais tentaram prever, a partir da conformação, o conjunto das medidas de passada e de movimento vertical. O R² validado foi de 0,13 ao passo e 0,12 ao trote. Na prática, o modelo previu cerca de 12% a 13% da variação em cavalos que não usou no ajuste.
Alguns modelos por medida foram melhores. O artigo mostra só os que chegaram a pelo menos 0,30:
| Andamento | Medida do andamento | R² validado | Preditor principal (componente da PCA e traços que o descrevem) |
|---|---|---|---|
| Passo | Duração da passada | 0,42 | PC1: inclinação da escápula, comprimento do corpo |
| Passo | Amplitude vertical da cernelha | 0,39 | PC3: escápula oblíqua, inclinação da pelve |
| Trote | Comprimento da passada | 0,38 | PC1: espádua longa, garupa inclinada |
| Passo | Fração de apoio da passada | 0,36 | PC2: equilíbrio entre espádua e pelve |
| Trote | Amplitude vertical do sacro | 0,36 | PC3: garupa curta, pelve mais inclinada |
| Trote | Fração de apoio da passada | 0,35 | PC2: equilíbrio da pelve |
Mesmo o melhor modelo, de 0,42, deixou 58% da variação sem explicação. Para os autores, a conformação teve uma ligação seletiva com o andamento e não foi a principal explicação para as diferenças entre as modalidades.
O que isso significa para o criador de Quarto de Milha
- A foto e a fita mostram a estrutura. O andamento precisa ser visto e medido. Entre os modelos apresentados, a conformação previu no máximo 42% de uma medida de passada e cerca de 13% do conjunto.
- O porte diferiu entre os grupos. Os cavalos de Tambor eram, em média, os mais altos e pesados. O conjunto das medidas do corpo, porém, não separou as modalidades com clareza.
- Assimetria mensurável aparece em cavalo atleta sem claudicação evidente. Os autores pedem que essas diferenças não sejam lidas, de forma automática, como problema. Elas também não provam adaptação ao treino.
- O contexto conta. Os autores recomendam ler a análise de andamento junto com a modalidade, o histórico locomotor, o ferrageamento, as lesões anteriores e o padrão próprio de cada cavalo.
- O mesmo cavalo, medido ao longo do tempo, pode dizer mais. Para os autores, o acompanhamento repetido pode ajudar a separar um padrão estável do cavalo de uma alteração que piora.
- O estudo não fala de herança. Ele não avaliou potros, genética ou herdabilidade. Pelo artigo, não dá para saber se o padrão de movimento de uma égua ou de um garanhão passa para os filhos.
O estudo também não incluiu cavalos de Apartação, Conformação ou Western Pleasure.
Limites do estudo
- Manuscrito sem edição final. A versão aceita pode ter erros, e os números podem mudar.
- Desenho transversal. Cada cavalo foi medido uma vez. O estudo mostra associação com a modalidade e não permite dizer que o treino causou as diferenças.
- Fora da pista de prova. As medidas foram feitas com o cavalo puxado à mão, ao passo e ao trote, em linha reta. Os autores lembram que o padrão pode ser outro com cavaleiro e durante as manobras.
- Amostra de conveniência. Os cavalos vieram de uma região restrita, com poucos proprietários e treinadores. Não houve cálculo prévio do tamanho da amostra, e quem coletou os dados sabia a modalidade de cada cavalo. Para os autores, 19 cavalos por modalidade é pouco para detectar efeitos pequenos.
- Perda de 33 dos 90 cavalos. As exclusões vieram principalmente de passadas válidas insuficientes, falhas transitórias de sinal, registros incompletos ou instabilidade persistente do sensor. Há uma divergência: os Métodos indicam 19 cavalos por modalidade com dados válidos nos dois andamentos, a Tabela 1 mostra 19 por modalidade, e as limitações dizem que o número variou um pouco entre modalidades e andamentos.
- Sessão única. Não foi possível avaliar se o padrão se repete em outros dias.
- Dados em material suplementar. Os índices de simetria, a razão de assimetria e o detalhe dos modelos estão fora do texto principal. Os dados brutos não são públicos, por acordo de confidencialidade com os proprietários e a instituição.
Considerações do Laboratório Select
O estudo tem mérito: é brasileiro, usa Quarto de Milha em competição no Brasil e mede o movimento com sensores. Na leitura crítica, separamos cinco pontos.
- Discussão e resultados destacam modalidades trocadas. Na discussão, os autores ligam a maior assimetria da cabeça às Rédeas (em comparação com o Tambor) e a do sacro ao Ranch Sorting. Nos resultados e na Tabela 2, a maior assimetria da cabeça é do Ranch Sorting (5,3 mm no trote, contra 4,2 mm nas Rédeas) e a do sacro é das Rédeas (8,9 mm no trote, contra 6,9 mm no Ranch Sorting). A versão final pode esclarecer esse ponto.
- Desvios-padrão muito pequenos. Algumas medidas da Tabela 2 têm dispersão rara para dados de campo, como 3,512 ± 0,020 mm no Maxdiff da cabeça ao passo, no Ranch Sorting. Vale conferir esses valores na versão publicada.
- Porte e forma contam histórias diferentes. A altura média na cernelha foi de 155,33 cm no Tambor e 146,65 cm nas Rédeas, com desvios-padrão perto de 2,5 cm. O texto diz que peso e altura diferiram, sem informar o teste estatístico. Mesmo assim, a PCA não separou as modalidades com clareza. Uma explicação possível: os dois primeiros componentes guardam só 28,6% da variação, e o porte se dilui entre muitas medidas.
- A exclusão pode ter ligação com a conformação. Os autores relatam que as repetições por sinal anormal ou possível deslocamento do sensor do sacro foram mais comuns em cavalos com musculatura glútea marcada ou garupa mais alta em relação à cernelha. Registros com instabilidade persistente desse sensor foram excluídos. O artigo não informa quantos saíram por esse motivo. Se esses cavalos saíram com mais frequência, a amostra final pode ter menos animais com esse tipo de conformação.
- Só os melhores modelos aparecem. Além dos dois modelos globais, a Tabela 4 mostra só os modelos por medida com R² validado de pelo menos 0,30. O texto principal não diz quantos modelos foram testados.
O trabalho do Laboratório Select acontece na bancada, com ICSI, cultivo e vitrificação de embriões. Publicamos esta revisão porque a escolha dos pais vem antes de tudo isso. Essa escolha merece medida, contexto e cautela com o que os números ainda não dizem.