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Conformação e movimento no Quarto de Milha: o que os sensores mostraram em Tambor, Rédeas e Ranch Sorting

Um estudo da UNESP Jaboticabal, aceito na BMC Veterinary Research em 2026, analisou 57 Quarto de Milha de Tambor, Rédeas e Ranch Sorting com sensores de movimento. O padrão de assimetria diferiu entre as modalidades, e as medidas de conformação explicaram só parte do andamento.

MorfologiaIntermediário19 out 202613 min
MORFOLOGIA

O estudo

O trabalho é de Renata Farinelli de Siqueira, do Departamento de Zootecnia da Universidade Estadual Paulista (UNESP), em Jaboticabal (SP), com Lavínia Andressa Brito, Isabela Marques Figueiredo e Larissa Santos dos Anjos. A BMC Veterinary Research recebeu o artigo em 15 de março de 2026 e o aceitou em 23 de julho de 2026. A FAPESP financiou a pesquisa. Os autores declararam não ter conflito de interesse.

Lemos o manuscrito aceito ("Article in Press"), antes da edição final. A revista avisa que ele pode conter erros que afetam o conteúdo.

Os autores partiram de duas hipóteses. A primeira: cavalos de Tambor, Rédeas e Ranch Sorting diferem em algumas medidas de passada, ângulo, aceleração vertical e assimetria, mesmo quando avaliados nas mesmas condições. A segunda: a conformação estática explicaria pouco dessas diferenças.

As três modalidades cobram coisas diferentes do cavalo. O Tambor exige arrancada e curvas fechadas. As Rédeas exigem desaceleração controlada, reunião, giros e esbarradas. O Ranch Sorting exige mudanças curtas e frequentes de direção no trabalho com o gado. Na avaliação, nenhum cavalo fez essas manobras. Todos foram medidos em linha reta.

Como o estudo foi feito

Os autores recrutaram 90 cavalos adultos, 30 por modalidade, em centros de treinamento do estado de São Paulo. A amostra foi de conveniência, por contato com proprietários, treinadores e locais de competição ligados a provas oficiais da ABQM. Cada cavalo precisava de pelo menos um ano seguido de treino e competição na modalidade.

Ficaram de fora os cavalos com claudicação de grau 2 ou mais (em 5) na escala da AAEP, ao exame visual, e os que tinham dor, aumento de volume, derrame articular ou outra alteração musculoesquelética à palpação.

ItemComo foi feito
Amostra90 cavalos recrutados; 57 analisados, 19 por modalidade
PistaReta de areia, 50 m de ida e 50 m de volta
AndamentosPasso (1,2 a 1,8 m/s) e trote (3,0 a 4,0 m/s), com o cavalo puxado à mão
SensoresSensores inerciais ProMove-mini (sistema Equi-Pro), 200 leituras por segundo, na nuca, na cernelha, no sacro e nos quatro membros
PassadasPelo menos 20 passadas válidas seguidas por andamento
Medidas linearesFita métrica, cavalo em estação, sempre pelo mesmo avaliador
ÂngulosFotos laterais padronizadas do lado direito, com pontos marcados por palpação e medidos no programa ImageJ

Os ângulos incluíram a inclinação da escápula e as articulações escápulo-umeral, úmero-radial, metacarpofalangeana, coxofemoral, femorotibial, tibiometatarsiana e metatarsofalangeana.

O estudo usou dois tipos de medida de assimetria:

  • Mindiff e Maxdiff: a diferença, em milímetros, entre o lado esquerdo e o direito no ponto mais baixo (Mindiff) ou mais alto (Maxdiff) do movimento vertical da cabeça, da cernelha ou do sacro, em cada passada. Quanto menor o valor, mais parecido é o movimento dos dois lados.
  • Δ (delta): a diferença absoluta entre o membro esquerdo e o direito em uma variável, como aceleração vertical ou amplitude de rotação. Os autores usaram o Δ como medida principal nos membros, por ser a mais estável.

A velocidade média não diferiu entre as modalidades (p > 0,10). Para a conformação, os autores usaram análise de componentes principais (PCA) e modelos de regressão testados por validação cruzada.

Os cavalos tinham cerca de 6 anos. Dos 57, 33 eram éguas.

CaracterísticaTamborRédeasRanch Sorting
Idade (anos)6,226,146,2
Éguas / castrados / garanhões11 / 2 / 610 / 1 / 812 / 0 / 7
Peso estimado (kg)464,15449,28432,64
Altura na cernelha (cm)155,33146,65150,30

O que o estudo encontrou

Na cabeça, na cernelha e no sacro, o Tambor teve a menor assimetria

As diferenças entre modalidades apareceram na cabeça, na cernelha e no sacro, ao passo e ao trote. Todas tiveram p < 0,001.

Segmento e andamentoTamborRédeasRanch Sorting
Cabeça, passo2,1 mm3,2 mm3,8 mm
Cabeça, trote1,9 mm4,2 mm5,3 mm
Cernelha, passo2,0 mm7,3 mm6,2 mm
Cernelha, trote2,0 mm7,1 mm7,5 mm
Sacro, passo2,0 mm8,3 mm5,3 mm
Sacro, trote1,8 mm8,9 mm6,9 mm

Mindiff médio, arredondado. Fonte: Tabela 2 do manuscrito.

Os cavalos de Tambor ficaram perto de 2 mm em todos os segmentos. As Rédeas tiveram os maiores valores no sacro e, ao passo, na cernelha. O Ranch Sorting teve os maiores valores na cabeça. No trote, a cernelha ficou parecida entre Rédeas e Ranch Sorting. O Maxdiff seguiu o mesmo desenho.

Nos posteriores, o Ranch Sorting teve, em geral, a maior diferença entre os lados

Nos membros, as diferenças mais consistentes apareceram nos posteriores, em aceleração vertical e em amplitude de rotação.

Medida nos posteriores (Δ)AndamentoTamborRédeasRanch Sorting
Amplitude da aceleração verticalPasso7,744,8716,67
Amplitude da aceleração verticalTrote11,994,8017,26
Rotação no eixo longitudinalTrote54,2919,2777,61
Rotação no eixo verticalTrote40,1519,1571,48

Médias da Tabela 3 do manuscrito (variáveis Δ_az_range, Δ_rom_roll e Δ_rom_yaw), todas com p < 0,001 e q < 0,001. A tabela não informa as unidades.

Aqui a ordem mudou. As Rédeas tiveram os menores valores, e o Tambor ficou no meio. Houve uma exceção: ao passo, na rotação no eixo transversal dos posteriores, o Tambor teve o maior valor (8,43, contra 4,37 nas Rédeas e 3,62 no Ranch Sorting).

Nos anteriores, as diferenças foram poucas e menos consistentes.

Na discussão, os autores escrevem que os cavalos de Tambor tiveram tempo de apoio mais curto e picos de aceleração maiores, e que os de Rédeas tiveram apoio mais longo. Esses valores não aparecem nas tabelas do texto principal.

Na conformação, as modalidades se sobrepuseram

A PCA reuniu as medidas lineares e angulares do corpo. Os dois primeiros componentes explicaram 28,6% da variação (18,6% e 10,0%). No gráfico, os cavalos das três modalidades se misturaram. Um agrupamento automático pelas medidas do corpo também não reproduziu as modalidades. O índice de concordância ficou perto de zero.

A conformação explicou parte do andamento

Os modelos globais tentaram prever, a partir da conformação, o conjunto das medidas de passada e de movimento vertical. O R² validado foi de 0,13 ao passo e 0,12 ao trote. Na prática, o modelo previu cerca de 12% a 13% da variação em cavalos que não usou no ajuste.

Alguns modelos por medida foram melhores. O artigo mostra só os que chegaram a pelo menos 0,30:

AndamentoMedida do andamentoR² validadoPreditor principal (componente da PCA e traços que o descrevem)
PassoDuração da passada0,42PC1: inclinação da escápula, comprimento do corpo
PassoAmplitude vertical da cernelha0,39PC3: escápula oblíqua, inclinação da pelve
TroteComprimento da passada0,38PC1: espádua longa, garupa inclinada
PassoFração de apoio da passada0,36PC2: equilíbrio entre espádua e pelve
TroteAmplitude vertical do sacro0,36PC3: garupa curta, pelve mais inclinada
TroteFração de apoio da passada0,35PC2: equilíbrio da pelve

Mesmo o melhor modelo, de 0,42, deixou 58% da variação sem explicação. Para os autores, a conformação teve uma ligação seletiva com o andamento e não foi a principal explicação para as diferenças entre as modalidades.

O que isso significa para o criador de Quarto de Milha

  1. A foto e a fita mostram a estrutura. O andamento precisa ser visto e medido. Entre os modelos apresentados, a conformação previu no máximo 42% de uma medida de passada e cerca de 13% do conjunto.
  2. O porte diferiu entre os grupos. Os cavalos de Tambor eram, em média, os mais altos e pesados. O conjunto das medidas do corpo, porém, não separou as modalidades com clareza.
  3. Assimetria mensurável aparece em cavalo atleta sem claudicação evidente. Os autores pedem que essas diferenças não sejam lidas, de forma automática, como problema. Elas também não provam adaptação ao treino.
  4. O contexto conta. Os autores recomendam ler a análise de andamento junto com a modalidade, o histórico locomotor, o ferrageamento, as lesões anteriores e o padrão próprio de cada cavalo.
  5. O mesmo cavalo, medido ao longo do tempo, pode dizer mais. Para os autores, o acompanhamento repetido pode ajudar a separar um padrão estável do cavalo de uma alteração que piora.
  6. O estudo não fala de herança. Ele não avaliou potros, genética ou herdabilidade. Pelo artigo, não dá para saber se o padrão de movimento de uma égua ou de um garanhão passa para os filhos.

O estudo também não incluiu cavalos de Apartação, Conformação ou Western Pleasure.

Limites do estudo

  • Manuscrito sem edição final. A versão aceita pode ter erros, e os números podem mudar.
  • Desenho transversal. Cada cavalo foi medido uma vez. O estudo mostra associação com a modalidade e não permite dizer que o treino causou as diferenças.
  • Fora da pista de prova. As medidas foram feitas com o cavalo puxado à mão, ao passo e ao trote, em linha reta. Os autores lembram que o padrão pode ser outro com cavaleiro e durante as manobras.
  • Amostra de conveniência. Os cavalos vieram de uma região restrita, com poucos proprietários e treinadores. Não houve cálculo prévio do tamanho da amostra, e quem coletou os dados sabia a modalidade de cada cavalo. Para os autores, 19 cavalos por modalidade é pouco para detectar efeitos pequenos.
  • Perda de 33 dos 90 cavalos. As exclusões vieram principalmente de passadas válidas insuficientes, falhas transitórias de sinal, registros incompletos ou instabilidade persistente do sensor. Há uma divergência: os Métodos indicam 19 cavalos por modalidade com dados válidos nos dois andamentos, a Tabela 1 mostra 19 por modalidade, e as limitações dizem que o número variou um pouco entre modalidades e andamentos.
  • Sessão única. Não foi possível avaliar se o padrão se repete em outros dias.
  • Dados em material suplementar. Os índices de simetria, a razão de assimetria e o detalhe dos modelos estão fora do texto principal. Os dados brutos não são públicos, por acordo de confidencialidade com os proprietários e a instituição.

Considerações do Laboratório Select

O estudo tem mérito: é brasileiro, usa Quarto de Milha em competição no Brasil e mede o movimento com sensores. Na leitura crítica, separamos cinco pontos.

  • Discussão e resultados destacam modalidades trocadas. Na discussão, os autores ligam a maior assimetria da cabeça às Rédeas (em comparação com o Tambor) e a do sacro ao Ranch Sorting. Nos resultados e na Tabela 2, a maior assimetria da cabeça é do Ranch Sorting (5,3 mm no trote, contra 4,2 mm nas Rédeas) e a do sacro é das Rédeas (8,9 mm no trote, contra 6,9 mm no Ranch Sorting). A versão final pode esclarecer esse ponto.
  • Desvios-padrão muito pequenos. Algumas medidas da Tabela 2 têm dispersão rara para dados de campo, como 3,512 ± 0,020 mm no Maxdiff da cabeça ao passo, no Ranch Sorting. Vale conferir esses valores na versão publicada.
  • Porte e forma contam histórias diferentes. A altura média na cernelha foi de 155,33 cm no Tambor e 146,65 cm nas Rédeas, com desvios-padrão perto de 2,5 cm. O texto diz que peso e altura diferiram, sem informar o teste estatístico. Mesmo assim, a PCA não separou as modalidades com clareza. Uma explicação possível: os dois primeiros componentes guardam só 28,6% da variação, e o porte se dilui entre muitas medidas.
  • A exclusão pode ter ligação com a conformação. Os autores relatam que as repetições por sinal anormal ou possível deslocamento do sensor do sacro foram mais comuns em cavalos com musculatura glútea marcada ou garupa mais alta em relação à cernelha. Registros com instabilidade persistente desse sensor foram excluídos. O artigo não informa quantos saíram por esse motivo. Se esses cavalos saíram com mais frequência, a amostra final pode ter menos animais com esse tipo de conformação.
  • Só os melhores modelos aparecem. Além dos dois modelos globais, a Tabela 4 mostra só os modelos por medida com R² validado de pelo menos 0,30. O texto principal não diz quantos modelos foram testados.

O trabalho do Laboratório Select acontece na bancada, com ICSI, cultivo e vitrificação de embriões. Publicamos esta revisão porque a escolha dos pais vem antes de tudo isso. Essa escolha merece medida, contexto e cautela com o que os números ainda não dizem.

Equipe Tucovet Select

Escrito pela equipe do Laboratório Select, laboratório de ICSI equina em Porto Feliz - SP. Encontrou um erro ou quer sugerir um tema? Escreva para contato@tucovet.com.br.